Entrevista: Como os norte-americanos comemoram o Natal

Entrevista com Vania Winters: uma brasileira à moda americana

Como os norte-americanos comemoram o Natal


Morando há pouco menos de 20 anos, no estado de Washington, Vania Barreira Winters, brasileira, de Araraquara-SP, gentilmente compartilhou um pouco de sua experiência sobre o Natal americano. Direto de sua casa para o Blog CasaCoração


Show de luzes em Leavenworth

Show de luzes em Leavenworth


·        Blog CasaCoração: Há quanto tempo é uma cidadã americana? E em qual cidade e estado mora, profissão?

Moro no estado de Washington, na Costa Oeste dos Estados Unidos, há quase 20 anos;
mudei-me para cá em janeiro de 1997. Não sou cidadã americana, apenas tenho residência permanente. Meu marido, Stan, é americano e trabalha com vendas de software. Temos dois filhos: Joseph, 18 anos, que estuda na Harvard em Cambridge, no estado de Massachussets; e Olivia, 15 anos, que cursa o primeiro ano do colegial (que aqui são quatro anos) e é “cheerleader”. Eu leciono inglês num Community College – isso mesmo: leciono inglês para americanos – uma das ironias do destino...

·      B.C.C.:   Decorações de Natal: quando as cidades e as casas começam a se vestir para a festa?

Tecnicamente, a “abertura oficial” dos preparativos para o Natal começam depois das festividades de Ação de Graças (Thanksgiving). Nem tente tocar músicas de Natal antes disso!!! No entanto, as lojas chegam a antecipar as vendas sazonais em até dois meses. Quero dizer que, em outubro, já existem vestígios de itens de Natal nas lojas, principalmente artigos de decoração, como luzes, pois as pessoas preferem começar instalações de luzes nas casas enquanto o clima ainda está bom. Em muitas regiões e dependendo do ano, já neva durante o Thanksgiving, que acontece sempre na quarta quinta-feira de novembro.

·       B.C.C.:   Essa decoração tão intensa e deslumbrante em muitos lugares, tem algum motivo especial, alguma origem, além do próprio significado do Natal?

Embora algumas formas de decorações natalinas datem do século X, nos Estados Unidos, o uso da árvore de Natal e outras decorações tornaram-se populares a partir de 1800. Hoje, nos Estados Unidos - um país de natureza capitalista,  há uma notável comercialização do Natal e de outras celebrações. A venda de luzes, enfeites, guirlandas, e outras novidades para a decoração de Natal é impossível de passar despercebida. Ao mesmo tempo em que as casas de vestem para o Natal, também as lojas se vestem para os consumidores – tudo, muito provavelmente, parte de um marketing muito grande para criar uma atmosfera de festa, celebração, consumo. Obviamente, o Natal viria (e sempre virá) mesmo que você não tenha os enfeites mais populares na sua árvore ou as milhares de luzes que podem causar um apagão no bairro ao redor da sua casa...

·      B.C.C.:    Como é comemorado o Natal nas famílias americanas, já que a grande festa para reunir a família é no dia de Ação de Graças?

A minha percepção, desde que me mudei para cá, é a de que Thanksgiving supera o Natal em termos de celebração em família.
Para o Thanksgiving, familiares viajam longas distâncias para estarem com a família, o que necessariamente não acontece no Natal. Talvez porque o clima durante o Thangkviging também seja mais propício, pois durante o Natal a neve causa bloqueio de rodovias, cancelamento de voos, etc. Também no Natal não existe, como aí no Brasil, um prolongamento de feriado com as celebrações de Ano Novo, o que torna o Natal um período mais curto para longas viagens. Mas a (inexistente) celebração do Ano Novo é assunto para uma outra entrevista...

B.C.C.:  Com certeza, Vania!

No Natal daqui, não se come peru, pois o peru é servido no Thanksgiving. Carne assada ou tender são os pratos tradicionais. Algumas igrejas celebram missa ou cultos na véspera do Natal. Os presentes são abertos na manhã seguinte, assim que o dia amanhece, afinal, Papai Noel veio entregá-los durante a noite. Quando meus filhos eram pequenos, meu marido e eu colocávamos os presentes ao redor da árvore, fazíamos “pegadas” com talco (supostamente neve) e um molde de sapato vindo da chaminé até a árvore de Natal na véspera, quando eles iam para cama. Para as renas, meus filhos deixavam cenoura e, para o Papai Noel (Santa), deixavam bolachinhas (cookies) num prato e um copo de leite. O Stan e eu tínhamos de lembrar de comer, pelo menos parcialmente, a cenoura e os cookies, e de beber um pouco do leite antes de irmos dormir. Hoje meus filhos sabem que não é o Papai Noel quem traz os presentes, mas ainda esperam pela manhã para abrirmos os presente juntos. Eu ainda escrevo “Do Papai Noel” (From Santa) em alguns pacotes. A parte mais divertida é a das meias (stockings): cada um de nós tem a sua própria meia que só é enchida na véspera do Natal com presentes sem muito valor comercial. Chocolates, brinquedinhos, sabonetes, qualquer coisa que a pessoa goste ou represente alguma coisa para ela. Por exemplo, meu marido sempre coloca alguma coisa que me lembre o Brasil – uma laranja ou uma mexerica, ou até mesmo café! Vale tudo!

B.C.C.: Parece-nos que em muitos casos, a árvore de Natal é montada praticamente na véspera, isso procede? Se sim, por quê?

Por causa do uso de pinheiros naturais, há a necessidade de cortá-los e trazê-los para dentro de casa não muito antes do Natal. O inverno é uma estação seca, e o uso de aquecimento artificial ou por lareira torna o ar ainda mais seco dentro de casa. Árvores de Natal são a causa de pelo menos 160 incêndios em casas todo ano. Pessoalmente, nós optamos por uma árvore artificial há uns 12 anos. Eu gosto de montar a minha árvore bem antes do Natal e o risco de ter um incêndio em casa não vale a pena...  O mais interessante é que um pinheiro artificial aqui custa muito mais caro do que um natural! Pode-se pagar até $400 por uma árvore de Natal artificial, enquanto um pinheiro já cortado custa de $30-70. Ou, ainda, por apenas $10 você compra uma autorização para ir cortar o seu próprio pinheiro na floresta! Eu gostaria de acrescentar que os pinheiros são “evergreen”, por isso permanecem verdes mesmo durante o inverno, mas quando são cortados e colocados dentro de casa, onde o ar é seco, eles  secam rapidamente, tornando-se perigosos.
Arvore de Natal de Vania



·      B.C.C.:  É comum vermos em filmes americanos, paradas natalinas, corridas de Papai Noel, coral de homens e mulheres se apresentando em frente às casas, isso acontece de fato, ou é apenas para rechear o filme?

Existem paradas natalinas em algumas cidades dos Estados Unidos. Não há um desfile em Washington, mas existem vários shows de luzes. Um deles ocorre na minha cidade, Leavenworth. Durante três finais de semana em dezembro, caravanas, inclusive do Canadá, vêm para assistir o show das luzes de Natal. Os shows acontecem após as 5 da tarde, quando já escurece aqui, no inverno. Enquanto todos cantam músicas natalinas, cada árvore da praça central é iluminada. A cada final de semana, a cidade chega a receber 10 mil visitantes! É emocionante de se ver, especialmente se estiver nevando, ou se houver neve no chão.







B.C.C.: Mas e o frio? 

Não.... se você estiver vestida adequadamente, você não vai passar frio...

·      B.C.C.:  O nosso blog tem como slogan “A sua casa é onde mora o seu coração” , e sabemos que é um lema das famílias americanas. Você poderia nos falar mais sobre a importância da casa na vida das pessoas, na visão norte-americana?

Cada cultura tem a sua própria percepção do que é uma casa, o que faz um lar. O americano em geral não tem o apego a um só lugar. Aqui muda-se frequentemente e para longe. O que se vê em filmes é bem verdadeiro, típico da cultura americana. A mudança é vista como um aspecto positivo da vida. O recomeço, a aventura, a busca do novo são uma parte essencial da vida americana. Profissionais procuram novas oportunidades em outras cidades, famílias são separadas por diversos estados, jovens intencionalmente mudam-se para cursar uma faculdade longe de casa em busca de uma independência pessoal que ocorre muito antes da independência profissional.
Eu senti e sinto saudade do Brasil e da minha família. Mas uma coisa que aprendi desde que me mudei para cá e constituí a minha própria família é que a sua vida é onde a sua família está. Minha casa agora é um ponto de referência para os meus filhos, o lugar para onde meu filho vai voltar no Natal, depois de seu primeiro semestre na faculdade, longe de nós. Eu estou decorando e preparando a nossa casa para recebê-lo e celebrar o nascimento de Jesus.  












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